Perdão
Sobre
Gare de Saint-Lazare (1932)
Naquele instante tudo era luz,
Mesmo sem saber o que havia sob a superfície, eu arrisquei,
Não é todo dia que se pode dar um salto como esse,
Guardo a ousadia na gaveta, na memória e na cicatriz.
Casal em Paris (1968)
“Como ele está?”
“Não sai da cama. Não quer brincar. Tá estranho.”
“É verme. Será?”
“Não. Não tem cheiro de doença isso. Talvez tenha a ver com
ela.”
“Ela tem vindo?”
“Não. Já faz algum tempo... Não consigo mais cheirá-la
direito. Deve estar bem longe daqui.”
“Não entendo...”
“Estava pensando outro dia, vendo o jeito que ele anda em
casa. Sabe aquilo que faz a gente balançar o rabo? Então, acho que tem a ver
com a falta disso.”
“Ela fazia ele balançar o rabo?”
“Sim, fazia.”
“Minha dona fala sempre sobre isso. Ela usa um nomezinho... Amor.”
“O que ela diz?”
“Bom, ela fala como se fosse doença. Sempre reclama que dói.”
“Mas, não dói quando balançamos o rabo.”
“Acho que eles sentem diferente. Pensam demais.”
“Será que ele tá doente de amor?”
“Deve ser.”
“Por que ele não vai atrás dela? O cheiro tá
longe, mas ainda dá para alcançá-la.”
“Não sei. Talvez sejam covardes por pensar. Ter amor e não
ter amor, acho que tudo dói pra eles.”
“São confusos isso
sim! Mas, gosto deles sabe... Me mata vê-lo desse jeito.”
“Tem barulho aí.”
“Ele acordou. Vou tentar brincar. Talvez lambendo isso passe.”
“Boa sorte!”
“Tchau
au
au ”

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