Parte I
Silêncio
Silêncio
Perfume
Existência
Azul-perdão
Sobre
Nuvem de calça
Parte II
Cartier Bresson - Casal em Paris (1968)
Ultimamente, a única coisa que estava intimamente ligada a minha boca era o cigarro, até aquela quarta-feira.
Primeiramente, faço questão de me apresentar. Trabalho nas ruas, nas de Paris para ser mais exato (ou caso seja tão curioso quanto eu). Não tenho casa própria, minha autobiografia é tão interessante quanto uma lista de compras colada na porta da geladeira, fumo e me chamo Amor. Sim, isso mesmo, A-M-O-R, com A maiúsculo.
Dispensando mais detalhes sobre mim - a partir de agora vulgarmente conhecido como narrador - irei contar o que me aconteceu.
Após o horário de almoço decidi, deliberadamente, tomar um café - algo que não tenho costume de fazer. Enquanto procurava um local adequado para sanar minha necessidade de cafeína, uma bela mulher - dona de um cachorro aparentemente sem raça definida, calças jeans, blusa listrada de manga, cinto totalmente desnecessário por cima da mesma - caso permita-me opinar - e rosto meio quadrado, nesta ordem - desviou seu olhar por um breve segundo até os meus e voltou ao seu capuccino.
Era impossível não notar a existência daqueles olhos cor de café. Tão escuros, hipnotizantes e profundos que não havia como ver o que estava se passando ali por trás, e justamente por isso tinha certeza de que havia algo lá. E mesmo comprometido, não pude deixar de me sentar.
Três cafés, vinte e sete minutos e eu me via mudando o assunto da conversa só pra poder dizer seu nome em voz alta. Quando me dei conta, em apenas um toque, nossos olhos se encontraram e se perderam. E então, da mesma forma intempestiva que cheguei, peguei meu paletó, repousei o cigarro sobre minha boca agora sorridente e fui.
Cartier Bresson - Gare Saint-Lazare (1932)
Sua rotina, quase sempre a mesma, o
impedia de realizar simples desejos. Trabalho, desejo e amor. Três palavras que
nunca - ou quase nunca- poderia ser escritas juntas. Já não se permitia pensar
nela, mas quem disse que não doía? O fim sempre doí... Aquela hora amarga do
dia sempre existia.
As
ocupações em uma grande cidade, poderia ser a causa – ou quem sabe a desculpa.
Ironicamente na cidade do amor.
Duas
horas da manhã, essa foi a hora do fim! O fim... do desespero, da agonia. Ali
estava, divido entre a escada e a poça, entre o seco e molhado. Travado entre o
querer e o poder...
...e
pulou.






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