terça-feira, 17 de março de 2015

Carolina Vik e Sara Sabino

                                                      Parte I

                                                       Silêncio 




Perfume




 Existência 





Azul-perdão





Sobre







Nuvem de calça





Parte II

Cartier Bresson - Casal em Paris (1968)


      Ultimamente, a única coisa que estava intimamente ligada a minha boca era o cigarro, até aquela quarta-feira.
     Primeiramente, faço questão de me apresentar. Trabalho nas ruas, nas de Paris para ser mais exato (ou caso seja tão curioso quanto eu). Não tenho casa própria, minha autobiografia é tão interessante quanto uma lista de compras colada na porta da geladeira, fumo e me chamo Amor. Sim, isso mesmo, A-M-O-R, com A maiúsculo.
    Dispensando mais detalhes sobre mim - a partir de agora vulgarmente conhecido como narrador - irei contar o que me aconteceu. 
    Após o horário de almoço decidi, deliberadamente, tomar um café - algo que não tenho costume de fazer. Enquanto procurava um local adequado para sanar minha necessidade de cafeína, uma bela mulher - dona de um cachorro aparentemente sem raça definida, calças jeans, blusa listrada de manga, cinto totalmente desnecessário por cima da mesma - caso permita-me opinar - e rosto meio quadrado, nesta ordem - desviou seu olhar por um breve segundo até os meus e voltou ao seu capuccino.
     Era impossível não notar a existência daqueles olhos cor de café. Tão escuros, hipnotizantes e profundos que não havia como ver o que estava se passando ali por trás, e justamente por isso tinha certeza de que havia algo lá. E mesmo comprometido, não pude deixar de me sentar.
     Três cafés, vinte e sete minutos e eu me via mudando o assunto da conversa só pra poder dizer seu nome em voz alta. Quando me dei conta, em apenas um toque, nossos olhos se encontraram e se perderam. E então, da mesma forma intempestiva que cheguei, peguei meu paletó, repousei o cigarro sobre minha boca agora sorridente e fui.








Cartier Bresson - Gare Saint-Lazare (1932)



  
    Sua rotina, quase sempre a mesma, o impedia de realizar simples desejos. Trabalho, desejo e amor. Três palavras que nunca - ou quase nunca- poderia ser escritas juntas. Já não se permitia pensar nela, mas quem disse que não doía? O fim sempre doí... Aquela hora amarga do dia sempre existia.
As ocupações em uma grande cidade, poderia ser a causa – ou quem sabe a desculpa. Ironicamente na cidade do amor.
Duas horas da manhã, essa foi a hora do fim! O fim... do desespero, da agonia. Ali estava, divido entre a escada e a poça, entre o seco e molhado. Travado entre o querer e o poder...


...e pulou.

   

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