Entendemos, sim, o catálogo do projeto “A Margem”, elaborado pelo coletivo Garapa, como uma possibilidade de representação da ideia de “livro do futuro”.
Especialmente, porque ocupa um entrelugar¹ discursivo, isto é, trata-se de um material intertextualizado e, sobretudo, intermidiático, que não se filia nem ao universo ficcional de Bellatin (averso à escrita representativa e à necessidade de constituição de sentido), nem ao projeto de escrita de Bernardo Carvalho (narrativas fortemente influenciadas por dados do real, de teor jornalístico), embora carregue traços evidentes de ambos. O catálogo de "A Margem" tem características similares ao trabalho de Bellatin, por
exemplo, pela fabulação e utilização das fotografias e ao trabalho de Carvalho, em que temos o arquivo real referente ao rio Tietê datadas dos séculos 18 e 19.
O coletivo Garapa arma uma espécie de “cartografia afetiva de leitura” para remontar a história do rio Tietê, através de fotografias (novas e antigas), imagens de classificados de jornal, poemas e pequenas narrativas, além de um mini pantone, criado para representar a cor da água do rio em diferentes épocas, o catálogo constitui um verdadeiro “arquivo por vir”, uma memória movente, principalmente por se pautar em uma apreensão anacrônica do tempo, do histórico do rio. O modo de operação utilizado pelo coletivo neste projeto estabelece um diálogo efetivo e constante entre diversas linguagens artísticas, o que faz com que nossa atenção seja tomada para cada detalhe das páginas. Tudo isso sem anular a necessidade da escrita, ao contrário, aqui ela acolhe as outras linguagens como um suplemento.
1 – Neste caso, entende-se por entrelugar um interstício em que temos um domínio performático de negociação (entre múltiplas linguagens), produtor de figuras complexas de diferença e identidade, em que se concatenam passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão.
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